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Hora de parar de ignorar a saúde mental no trabalho

O advogado Gabe MacConaill, de 42 anos, sócio do escritório de advocacia Sidley Austin,  estava cuidando de um processo difícil da empresa Mattress Firm.

 

Meses antes de uma audiência, em outubro de 2018, pessoas próximas ao advogado disseram que ele estava se isolando. A porta do escritório era fechada com mais frequência e raramente ele encontrava com seus amigos. Em uma conversa com a esposa, Joanna Litt, chegou a dizer que não tinha experiência suficiente para cuidar do caso e seria processado por negligência.

 

MacConaill parou de ir à academia e tinha insônia quase todas as noites. Joanna indicou um terapeuta. Mas o conselho não foi seguido. O advogado respondia que não tinha tempo, porque a prioridade era o trabalho. 

 

À medida que a data do julgamento se aproximava, MacConaill começou a desmoronar. Ele disse à esposa que acreditava que seu corpo estava falhando, mas temia que, se seus chefes enxergassem fraqueza, seria o fim da sua carreira.

 

Certo dia MacConaill passou mal. Chegou a suspeitar-se de um ataque cardíaco. Depois de uma semana, ele morreu. A causa? Suicídio no estacionamento do seu escritório de advocacia.

 

Embora as causas do suicídio sejam complexas, os especialistas dizem que o ambiente de trabalho do século XXI pode exacerbar problemas, como o esgotamento mental e a depressão.

 

Estudiosos em psicologia do trabalho concordam que o burnout é uma crise de saúde pública em ascensão, segundo reportagem do jornal Financial Times (FT). Outro exemplo é Ryan Keith Wallace, um advogado de 27 anos de um escritório de advocacia de Houston. Ele se suicidou após um dia especialmente estressante no trabalho. A morte foi um choque para quem o conhecia. "Todos os dias quando eu sento me pergunto o que eu poderia ter feito para ajudá-lo”, diz a viúva, Kyrie Cameron. 

 

Cameron, que também é advogada, acredita que a personalidade perfeccionista do marido e o medo de fracassar foram dois motivadores para o suicídio. "A nossa profissão perdeu a noção", diz ela. “Achamos que ser advogados nos define. Esse sucesso significa ser a pessoa mais bem remunerada e produtiva — mesmo que isso custe a nossa saúde.” 

 

Áreas como direito, finanças e consultoria parecem ser propensas a cultivar uma cultura de trabalho que demanda muito dos funcionários, mas o burnout afeta profissionais de todos os setores. 

 

Nos Estados Unidos, por exemplo, um médico se suicida por dia. Estresse, depressão ou ansiedade correspondem por 44% de todos os casos de doenças relacionadas ao trabalho na Grã-Bretanha, e 57% de todos os dias de trabalho perdidos devido a problemas de saúde.

 

Quando o FT iniciou a investigação sobre os casos de suícidio no ambiente de trabalho, pediu a seus leitores que descrevessem como seus empregadores lidam com problemas de saúde mental, incluindo estresse, ansiedade e depressão. Mais de 450 pessoas de 43 países responderam. 

 

Dois terços delas acreditam que o emprego teve um efeito extremamente negativo em sua saúde, e 44% disseram que não acham que a saúde mental é levada a sério dentro do ambiente corporativo.

 

Mesmo que muitas empresas fortaleçam suas políticas para reduzir as disparidades salariais entre homens e mulheres e acabar com o assédio sexual, o bem-estar mental geralmente é uma reflexão tardia. “Não se trata de comprar Fitbits para funcionários e ensiná-los a respirar fundo”, diz Donna Hardaker, especialista em saúde mental. “Você deve abordar o micro e o macro. Existe uma ideia cultural profundamente enraizada de que os locais de trabalho são bons e que são os funcionários que são o problema. Mas os empregadores têm, sim, uma responsabilidade social de não prejudicar as pessoas que trabalham dentro de suas paredes”.

 

A incapacidade de apoiar os funcionários também está custando uma fortuna às empresas: estima-se que 615 milhões de pessoas sofrem com depressão e ansiedade. De acordo com um estudo recente da Organização Mundial de Saúde, isso custa cerca de US$ 1 trilhão em produtividade a cada ano.

 

Muitos especialistas apontam para o excesso de trabalho como o centro da crise de saúde mental: espera-se que os funcionários estejam disponíveis 24 horas por dia, 7 dias por semana, para responder a e-mails e atender a clientes exigentes. Estudos mostram que o burnout é uma característica dos funcionários que mais se importam com seu trabalho. Tal como Wallace e MacConaill, estes não são, frequentemente, os piores empregados do empregador, mas sim os melhores. "Essas são as pessoas que estão tão comprometidas que não sabem quando parar", afirma Mike Thompson, CEO da National Alliance of Healthcare Purchaser Coalitions e um dos principais defensores do tema da saúde mental no ambiente de trabalho.

 

As empresas que não possuem sistemas para apoiar o bem-estar de seus funcionários têm maior rotatividade, menor produtividade e maiores custos com saúde, de acordo com a Associação Americana de Psicologia. 

 

Ajuda aos funcionários
Companhias em todo o mundo estão tentando contribuir para a saúde mental dos funcionários. Algumas contrataram terapeutas. A Volkswagen orientou os gestores a não enviarem e-mails para os funcionários entre 18h15 e 7h. Uma companhia de seguros, na Nova Zelândia, testou uma jornada de trabalho de 32 horas e relatou menor estresse e maior engajamento da equipe. De acordo com a lei do "direito de desconectar" da França, se um funcionário não atender ou responder mensagens enviadas ao smartphone fora do horário de trabalho, isso não deve ser considerado como má conduta. No entanto, apesar dos avanços, a maioria dos especialistas acredita que ainda há um longo caminho a ser percorrido.

 

 

fonte: RevistaÉpocaNegócios


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